sábado, 2 de janeiro de 2010

batacada

"contribuição poética e voluntária de Carla Bispo"

e portanto
é preciso sambar...
fazer samba é viver
e não sofrer...


batacada...cada um cada um. 

araci de almeida

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Lá fora, vendo a chuva que caí lá fora


O tempo passa o tempo todo, vendo as nuvens negras cobrindo o céu, cedo à tentação de ver a chuva cair lá fora: a tempestade que desaba sobre o lago tornando sua água mais líquida, sobre o lago vê-se a ponte, sobre a ponte sobre o lago vê-se pessoas correndo sob a chuva, de bicicletas, refletidas no lago, sob a chuva sobre a ponte sobre o lago pessoas sobre bicicletas passam, vagarosamente. O lago sob o céu refleta a chuva e o que passa sobre ele. Sob a chuva lá vem o mestre-sala das águas, com um sorriso de orelha a orelha, com seus raros dentes de marfim, sua boca quase banguela, sua pele negra, anda como quem samba, vive como quem se equilibra na corda-bamba, bom de papo e ruim de grana. De pronto cede o isqueiro para por fogo em meu cachimbo, entre fumaça e chuva o vejo partir, lá se vai com sua ginga de bom malandro, andando como mestre-sala, sambando nas poças d´água. Eu permaneço onde estou: Lá fora, vendo a chuva que caí lá fora! olho a programação do Planetário, penso em Plutão rebaixado a planeta anão ou pedra boiando no espaço, os analistas contando dinheiro, fruto da crise dos que perderam o ascendente... quem perde, busca! mesmo que seja no espaço infinito, uma motivação para se tornar estrela, ver claramente o norte, mas estrela é coisa do firmamento, nós vivemos cá embaixo, com lagos sob ponte e pessoas correndo sob a chuva sobre a ponte. Quem está sobre a ponte e olha para o lago vê: ela mesma , agora parada, refletida no lago sob a chuva, sobre a ponte, sobre o lago... e o tempo passa o tempo todo. Só está chuva insiste em não passar.


Foto: HD Expressionista 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Somente a arte esculpindo a humana mágoa

nestas tardes de ar líquido, de primavera sem flores, não há passarinhos trepados trepando nos fios, tão pouco cachorros grudados nas esquinas, nem gatas no cio miando noite adentro. Só há esta primavera de flores no mercado. Cinco meninas entre 15 e 18 anos se agaram na esquina, bacantes Augusta abaixo. Não fosse tanto desejo ser uma farsa... os seios apertados, mordidos e chupado, por tantas, não mostra nenhuma excitação, seus mamilos continuam inertes, no rosto das cinco apenas um vazio vazado no qual se vê uma encenação de um roteiro desprovido de verdades e desejos. Sonhei que Baco desceu Augusta abaixo inflamando o tesão, exaltando o desejo! Eu vi Roberto Piva no parque Buenos Aires conversando com Borges em árabe, Piva fecha os olhos para vê como Borges vê... e tudo é névoa-nada, fome-e-vento. Cemitério da Consolação, o tumulo da tfp sempre florido, sonho que a escultura de Brecheret, mulheres de gestos suaves e um Cristo de corpo esguio, dança no mausoléu do Matarazzo, a Marquesa de Santos lasciva se insinua aos passantes. Oswald, Mário e Monteiro Lobato unidos pela noumenalidade do NÃO SER! Vejo Joe com a mulher de cabelos de alface, ela; um olho tapado, um ouvido tapado, sussura ao acaso: às vezes sou eu, às vezes sou outras tantas.

Evoé...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Uma marina Augusta acima








Subindo a Augusta tentando me livrar dos buracos da calçada, penso em Visconti ao ver Marina tentando esconder-se em si mesma. Quem acredita que marina é um local seguro para atracar seu barco, após noites e noites em alto mar, comete um ledo engano! Pois ainda não conheceram Marina. Bela, branca, baixa. Impossível não notá-la. Sentados à mesa de um café, Marina com olhar fugidio pede café com gestos harmônicos, entre um gole e outro imagino Tadzio em uma praia em Veneza, correndo na areia com seu corpo seminu, sua pele alva, o calor do sol penetrando em seus poros, o suor brotando da pele e correndo pelo corpo. É noite! Não há sol, a praia mais próxima fica a mais de 100km. Marina acende um cigarro, o farol dos carros não guia barco algum, mas ilumina o rosto de Marina a cada instante mais belo, seus lábios vermelhos, finos e pequenos encerram dentes simetricamente perfeitos e brancos, sua língua insiste em brincar fora da boca, acaba presa entre os dentes. Quais palavras iam ser pronunciadas pela língua de Marina? O que seus dentes a impedia de dizer? Com seu All Star preto, pés pequenos, sua calça de veludo vermelho, blusa cinza, despojadamente bela com seu estilo non sense. Seus olhos negros na ausência de luminosidade, e mel quando há luz, sobrancelhas marcantes para seu rosto suave, uma pinta preta do lado direito da face, próximo ao olho, cabelo castanho claro bem curto ao estilo Paris 68, uma madeixa que insiste em cair sobre seu olho direito, ela com a mão direita retira, lentamente, a madeixa sobre o olho - num gesto contemplativo. Continuo seguindo seu olhar na busca de descobrir onde ela se esconde em si. Lá se vai Marina, cruza a Paulista, rumo ao cinema para ver Nova York, Eu Te Amo. Isso não é um filme e não estamos em Nova York e não há amor nas esquinas, penso em Tadzio andando pelos becos de Veneza e dando de cara com os mortos de peste por todo lado. Marina fica como algo onírico fora do tempo e do espaço, desço a Augusta pensando em Caio Fernando tentando se esquivar dos buracos da angustia. Caio logo a frente sorri e me pergunta dos morangos, digo que mofaram e que as marquesas vivem encerradas em apartamentos assistindo ovos serem apunhalados nas esquinas ou, talvez, seja só o leiteiro lá fora. Lembro-me de um diálogo de Morte em Veneza: O belo não se constrói, ele simplesmente existe!
Assim como Marina.



Foto: Marina Arruda
http://www.flickr.com/photos/marinaarruda/

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Augusta em transe em transito


Dias líquidos, 06h40, segunda-feira, caí a primeira chuva da semana. Chuva? não, o que caí é um dilúvio, Poseidon lambe a Augusta, o pó dos que cairam é levado rua abaixo. O ritmo dodecafônico dos pingos que pingam pungentes em meu corpo, ouvido adentro. Café com conheque, cachimbo entre dentes. Enquanto caí a chuva, da sacada, sorvo gole a gole da xicara, entre um trago e outro e, em meio a fumaça, assisto as águas levando Augusta abaixo todos os sacos de lixo da calçada, desde a Paulista rumo à Roosevelt, a rua transforma-se em um rio de correntezas plásticas, sacos multicores trasnformam o asfalto em arco-íris, opondo-se ao negro do céu. Alguém desce do ônibos, em um dia líquido, lá se vai o guardachuva, destroído pelo vento, água até as canelas, correndo loucamente sob a chuva, certamente para a senzala diária. Horas depois, tarde de ar úmido, lá vou eu e Thaís na escadaria da Avanhandavá acima, eis que descem rolando, um sobre o outro, duas bolas de pêlo cinza-esgoto, mordendo uma à outra, emitindo sons sinistros, 200 lances ou mais de escada abaixo vão as ratazanas, mordendo uma à outra. Abstinência de crak, aos guinchos correm rumo a Paim. Abre-se uma nuvém vermelha e três ninfas nuas preparam-se para a rua, faz-se o cabelo e só vejo pernas, bundas, mamilos, seios, coxas caxos, a bandeja - da mais falsa prata - dança de mão em mão, foram-se s nuvéns brancas, ninfas nuas dançam esperando a madrugada. Mesmo não sendo parlapatão, desvendo a Roosevelt com luneta ao contrário, via a família brasil reunida sobre uma porção farta de restos, quando sentem-se em perigo correm às dezenas para a sarjeta, são tantos em cima de tantos, jogam-lhe gasolina, risca-se um bastão cilindrico, cimétrico, de cor madeira, em uma de suas duas pontas há uma superfície arredondada de cor rubra, fricciona-se está superfície sobre a lateral da caixa e jaz... Fez-se o fogo, lançou-se o bastão ao ar, rumo ao boeiro. Sob a praça escura pequenas estrelas até parece que flutuam velozes em todas as direções, tentando se livrar do corpo em chamas. Em poucos segundos  tudo volta a ser treva. Mugem por trás das colunas: não sobrará pedra sobre pedra, miro o túnel que perfura a praça, sobre o túnel há dois pavimentos de estacionamento, sobre o estacionamento há a parte térrea da praça e encima desta há a praça - tudo do mais puro concreto deteriorado. Do escuro-escuro grasna Garrastazu, a montanha de fezes quase a obstruir a entrada do túnel. Oh, pínico dos desvalidos. Que venha novamente dias líquidos e lave tudo, leve tudo. Leve... muito leve. No mesmo espaço, mas em outro tempo, noite de calor seco, das sacadas e janelas pululam os viventes, em frente vê-se, janela adentro, 3 belas, brancas e puras meninas da noite, nas em pêlos, poucos pêlos, o vento do ventilador entra coxas adentro refrescando seu sexo. A direita, na sacada, um violoncelo e partituras, sa dona, e que dona, alta e de carnas fartas, somente de calcinha vermelha e sutiã, tranquilamente sentada, absorta do calor ou possuída por ele. Vejo Baco na esquina pagando uma puta, ébrio de vinho e de vida.


Continua...
.
Foto: Carla Bispo

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Manhã líquida

O céu amanheceu líquido
café preto e conhaque
da sacada vê-se a enxorada
entre uma tragada e outra de cachimbo
Aposto qual saco de lixo descerá a Augusta primeiro,
O saco preto para no meio da rua,
o branco desce,
o preto estoura,
ficam apenas,
na via,
o resto do que não foi digerido

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Não o acordem! Ele é tão infeliz quando...


Era uma orelha grande, bem grande, verde limão, deitada tranquilamente na calçada, em uma tarde extremamente quente, ar seco, o sentimento de algo enroscado na garganta, sobre a calçada (Rua Alagoas e Sabará) a grande orelha, em seu interior algo se mexia, também grande e peludo, com a pele coberta de sujeiras. Parei a bicicleta e contemplei a cena: o sol de inverno furando entre as poucas folhas das árvores e desenhando na calçada pequenas abstrações de luz, em meio às abstrações uma enorme orelha verde limão, tão real e natural que penso que Magritte passou por aqui, suas nuvens de pedra flutuando no céu, as maças tão grande quanto o desejo de pecar. Penso em correr à farmácia mais próxima e comprar cotonetes imensos para livrar a orelha do intruso. "Não o acordem, não lhe preguem peças, Ele é tão infeliz quando não está dormindo", a orelha foi se metamorfoseando em cadeira de balanço, depois em caracol e por fim em útero. Ele no interior da orelha alheio a tudo e a todos, balançando docemente com braços e pernas contraídas contra o corpo, em posição fetal. Virando a orelha, serviria como casco-casa, mas a sua finalidade lúdica era criar um simulacro do útero, deixar o Ser e voltar ao Não-Ser. "ao lado da sua cabeça, há duas penas. Se eles as viu antes de adormecer talvez sonhe que é um pássaro e que voa...", isso é Prévert e seu burro, é outra história, talvez ele sonhe que ouve Satie e ouvindo Satie sonhe que é um mendigo e que dorme dentro de um orelhão caído na calçada numa tarde de inverno com sol e folhas secas na calçada, sem documentos, sem contas a pagar, nada a receber, sem casa, sem familia, sem nome, tão isento de laços como no seu primeiro dia de natimorto.


Tela: Libertação - HD Expressionista